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Un chien andalou (1928) - Luis Buñel & Salvador Dalí |
Uma das principais
contribuições do pensador alemão Walter Benjamin para a estética moderna foram suas reflexões acerca do efeito de choque, isto é, da maneira
como a obra de arte moderna, ao romper drasticamente com as expectativas de recepção
do público, favorece uma experiência subjetiva diversa daquilo o que podemos
chamar de “recolhimento contemplativo”. As expectativas de recepção com as
quais a obra de arte romperia, no caso, seriam de natureza variada: incluem
tanto os aspectos formais e composicionais quanto o temático. O choque se
dá não apenas ao contrariar a compreensão que o público nutre em relação ao
que seja uma obra de arte e da maneira como se organizam suas estruturas, como
também na afronta às regras do decoro estilístico, violentando assim certa
noção do que seja a dignidade intrínseca do objeto artístico. Enfim, o choque
surge da negação de valores socialmente estabelecidos, sejam eles de natureza
estética ou até mesmo moral.
Entretanto, percebe-se uma ambivalência no juízo
que Walter Benjamin faz a respeito do efeito de choque, pois é possível
discernir, em seus textos que remetem direta ou indiretamente ao assunto, dois
tons gerais. No primeiro deles, mais positivo, a estética fundada no choque é
apresentada como uma espécie de educação dos sentidos para a possibilidade
revolucionária; no segundo, menos otimista, o efeito de choque representa a
crise da experiência no mundo moderno.
O primeiro tom está dado em “A obra de arte na era de sua
reprodutibilidade técnica” (1984). De acordo com tal ensaio, a montagem no cinema,
criando uma sucessão rápida de imagens, impede uma atitude contemplativa da
parte do receptor, instituindo uma modalidade de fruição estética denominada distração, diversa daquela que se verifica em relação à arte tradicional. A distração se diferencia do
recolhimento contemplativo por tratar-se de uma percepção praticamente imediata dos
estímulos visuais, absorvidos de maneira quase “tátil” pelo espectador, a quem
não é dado tempo para elaborar cognitivamente o que lhe é apresentado; daí o
efeito de choque.
Segundo Benjamin, o choque exercido pelo cinema sobre a
sensibilidade do espectador em estado de distração molda seu aparelho
perceptivo, contribuindo para a constituição de uma nova sensibilidade e reproduzindo
esteticamente, em certo sentido, a experiência sensorial que moradores de
grandes centros urbanos experimentam todos os dias. Por isso o efeito de choque
expressa uma forma inédita de perceber o mundo, absolutamente moderna e
indissociável do adensamento de uma vivência social tipicamente urbana. O
choque é, então, o fundamento de uma estética apropriada aos tempos modernos e,
além disso, possui um potencial transformador, socialmente revolucionário.
“Diante do filme”, diz Benjamin:
“(...) o espectador percebe uma imagem, ela não é mais a mesma. (...). A associação de ideias do espectador é interrompida imediatamente, com a mudança da imagem. Nisso se baseia o efeito do choque provocado pelo cinema, que, como qualquer outro choque, precisa ser interceptado por uma atenção aguda. O cinema é a forma de arte correspondente aos perigos existenciais mais intensos com os quais se confronta o homem contemporâneo. Ele corresponde a metamorfoses profundas do aparelho perceptivo, como as que experimenta um passante, numa escala individual, e como as experimenta, numa escala histórica, todo aquele que combate a ordem social vigente.” (BENJAMIN, 1984, p. 192)
A estética cinematográfica contribui para a formação de uma
sensibilidade revolucionária, habituando o aparelho perceptivo do espectador a
transformações rápidas e súbitas. O choque forja o espírito dos indivíduos na
dinâmica da revolução, desempenhando uma importante função política potencializada pelo cinema, forma coletiva de entretenimento cujo
destinatário é a massa. Tal visão, ancorada na natureza industrial da obra cinematográfica, está de acordo com os princípios do pensamento marxista,
que propõe ser o desenvolvimento do capitalismo que gerará as condições de sua
própria supressão. Nesse caso específico, o avanço tecnológico industrial, que
possibilitou o surgimento e a disseminação do cinema, voltar-se-ia contra a
ordem capitalista, fomentando entre as massas as sementes psicológicas da revolução.
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La sortie de l'usine Lumière à Lyon (1895) - Auguste & Louis Lumière |
Em “Sobre alguns temas em Baudelaire” (1989), o pensamento
de Benjamin a respeito do efeito de choque sofre uma inflexão, mais perceptível
à luz de outros ensaios de sua obra. Para Benjamin, a poesia de Baudelaire está
fundamentada numa experiência “para a qual o choque se tornou a norma”, ou, em
outras palavras: “A experiência do choque é uma das que se tornaram decisivas
para a estrutura de Baudelaire”. Com isso, Benjamin está dizendo que Baudelaire
não apenas se apropria da temática urbana, como também encontra a forma
adequada para representar a experiência do indivíduo numa grande metrópole. O
efeito estético de choque na poesia baudelairiana seria a formalização da
experiência à qual os moradores dos centros urbanos estão cotidianamente
submetidos. Entretanto, como espero demonstrar, o que a experiência do choque
expressa é o esvaziamento da própria experiência, como Benjamin a entende.
Ainda em “Sobre alguns temas em Baudelaire”, Benjamin afirma que a experiência forma-se quando o sujeito é capaz de atribuir significado a um determinado
acontecimento. Tal significado depende de um conjunto socialmente construído de
valores e ideias, que, transmitido pela tradição, orienta as ações e o
pensamento das pessoas. A experiência, portanto, é o acontecimento tornado
inteligível, dotado de um sentido possível de ser transmitido (acima de tudo,
trata-se de um saber social e socializável); o contrário disso, o acontecimento
destituído de sentido, intransitivo, é a mera vivência. Numa realidade social submetida a constantes
transformações pelo desenvolvimento capitalista, torna-se cada vez mais difícil
estabelecer referências sólidas à ação, de maneira que o saber tradicional
perde rapidamente sua validade, antes mesmo que novos valores tenham
oportunidade de se sedimentar. Como resultado, o indivíduo é obrigado a
assimilar abruptamente os acontecimentos sem quaisquer mediações, isto é, sem
contar com um esquema prévio no qual acomodá-los. É nesse sentido que o efeito
de choque não é tanto a expressão estética da experiência de uma realidade em
constante mudança — apontando no horizonte histórico para a revolução —, quanto
a manifestação de uma degradação da própria experiência em seu cerne.
Em “Experiência e pobreza” (1984), Benjamin oferece os
termos que permitiriam solucionar essa contradição (ou, no mínimo,
ambivalência) de sua obra. Segundo ele, a pobreza de experiência no mundo
moderno impele os homens “a partir para a frente, a começar do novo, a
contentar-se com pouco, a construir com pouco, sem olhar nem para a direita,
nem para a esquerda”, ou seja: o presente devastado é campo para um novo tempo,
um tempo estruturalmente novo, inédito: “Pobreza de experiência: não se deve
imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a
libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão
pura e claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa
resultar disso”. Para o domínio da arte, a consequência desse estado de
pobreza é uma redução radical dos meios expressivos, que se faz acompanhar de
uma aguda consciência do processo de criação, pois o artista já não pode mais
contar com as fórmulas legadas pela tradição: “De resto, essas criaturas [os
artistas] também falam uma linguagem inteiramente nova. Decisiva, nessa
linguagem, é a dimensão arbitrária e construtiva, em contraste com a dimensão
orgânica”. Diante de um mundo cada vez mais carente de sentido humano (pois é a
experiência que concede sentido humano às coisas), a arte responde se
desumanizando, reproduzindo, em seus procedimentos, a lógica da matemática e da
engenharia: a obra de arte pensada como máquina, como constructo. O preço a se
pagar por uma arte moderna, atual, é assumir a pobreza de experiência,
incorporando-a ao trabalho artístico.
Benjamin não o diz, mas podemos presumir que tal
incorporação inclui o efeito de choque, como indício do esvaziamento da experiência
no mundo capitalista. Dessa maneira, as duas pontas soltas da produção
ensaística de Benjamin se enlaçam: quer se olhe para o choque sob uma
perspectiva trágica ou otimista, o caso é que ele habitua os indivíduos a viver
num mundo sem experiência, preparando-os para um novo tempo. O choque possui um
valor pedagógico puramente formal, isto é, que não se realiza por meio de
conceitos — uma espécie de educação dos sentidos.
Para uma justa apreciação das reflexões de Benjamin acerca
das implicações políticas do efeito de choque devemos considerar seu horizonte
histórico. Em sua época, a revolução socialista, a exemplo do que acontecera em
1917 na Rússia, parecia uma possibilidade bastante palpável. Benjamin lia o
processo histórico europeu a partir das lentes do marxismo, segundo o qual o
desenvolvimento do capitalismo industrial representava uma marcha inexorável em
direção à revolução e à constituição de uma sociedade comunista. Dessa maneira, não poderia prever, por exemplo, a cooptação do
cinema — na forma da indústria cultural — como meio difusor da ideologia e do
imaginário das classes burguesas.
Outro ponto a ser levado em conta é a natureza eminentemente
subjetiva do efeito de choque. Numa época em que há uma maior homogeneidade do
gosto, na qual a atividade artística ainda é regida por uma série de
convenções tradicionalmente estabelecidas e as regras do decoro ainda são bem
claras, é possível prever, com alguma segurança, quais são as expectativas de
recepção do público para contrariá-las deliberadamente, ensejando assim o
efeito de choque. Mas é justamente tal conjunto unificado de valores que,
segundo o próprio Walter Benjamin, a modernidade viria solapar. Ou seja: o
efeito de choque diz respeito a uma sensibilidade especificamente moderna, ao
mesmo tempo em que a modernidade tornaria as pessoas cada vez mais insensíveis ou
indiferentes ao efeito de choque. No final das contas, o próprio choque, como
drástica ruptura com as expectativas do público, acaba se convertendo numa nova
expectativa de recepção, sendo que um público acostumado a se chocar é um
público menos propenso a reconsiderar seus valores no momento do choque. O
“susto” programado nas películas de horror não seria uma rotinização do referido
efeito?
Peter Bürger (2008), examinando o procedimento da montagem
entre as vanguardas europeias, observa que não é possível controlar a reação do
receptor, mirando, por exemplo, uma atitude contrária às injustiças da
sociedade burguesa ou ao que quer que seja. Por isso, seria impossível atribuir
à montagem uma função política progressista, pois, como bem lembra Bürger, tal
procedimento foi utilizado tanto pelos futuristas italianos, simpatizantes do
fascismo, quanto pelos vanguardistas russos, integrados a uma sociedade
socialista em construção, de modo que um mesmo procedimento técnico, em
diferentes contextos, pode assumir um significado político diverso. Se considerarmos
o efeito de choque sob esse ponto de vista, temos que não se pode determinar,
como faz Benajamin, uma consequência inequívoca do cinema, por exemplo, sobre a consciência
dos agentes históricos.
Outra questão levantada por Bürger é se a afronta aos valores partilhados pelo público não acabaria levando, incidentalmente, a um recrudescimento das posições que, a princípio, pretendia combater: “É mesmo questionável se a provocação não faz por reforçar as posturas existentes, propiciando-lhes ocasião para que se expressem abertamente” (BÜRGER, 2008, p. 159). Dessa maneira, a vivência do choque pode acabar resultando numa nostalgia da tradição, no desejo por uma ordem estável, dando origem a um pensamento conservador, com sua respectiva estética. O classicismo de Arno Breker, escultor oficial do Terceiro Reich, não é, afinal de contas, a contraparte estética do desenvolvimentismo militarista da Alemanha nazista? Ou melhor: em que medida o próprio fascismo, com seu fascínio pela autoridade e pela hierarquia, pode ser pensado como uma reação à marcha vertiginosa da História sob o capitalismo industrial?
Outra questão levantada por Bürger é se a afronta aos valores partilhados pelo público não acabaria levando, incidentalmente, a um recrudescimento das posições que, a princípio, pretendia combater: “É mesmo questionável se a provocação não faz por reforçar as posturas existentes, propiciando-lhes ocasião para que se expressem abertamente” (BÜRGER, 2008, p. 159). Dessa maneira, a vivência do choque pode acabar resultando numa nostalgia da tradição, no desejo por uma ordem estável, dando origem a um pensamento conservador, com sua respectiva estética. O classicismo de Arno Breker, escultor oficial do Terceiro Reich, não é, afinal de contas, a contraparte estética do desenvolvimentismo militarista da Alemanha nazista? Ou melhor: em que medida o próprio fascismo, com seu fascínio pela autoridade e pela hierarquia, pode ser pensado como uma reação à marcha vertiginosa da História sob o capitalismo industrial?
No final das contas, qualquer reflexão acerca do efeito de
choque, assim como de qualquer outro efeito de natureza estética, esbarra em
sua carência de objetividade, o que significa que, como resposta subjetiva a uma
determinada expressão artística, o efeito em si não está dado na obra; ele
existe apenas em estado de latência e, para se realizar, depende dos valores e
esquemas de apreensão que a pessoa mobilize durante sua recepção. Portanto,
todo efeito é uma aposta — tanto mais arriscada quanto maior é a diversidade social
e cultural do público — e sempre estará sujeito, em alguma medida, a disposições
psicológicas de natureza irredutivelmente individual.